Estudo genético com mais de 600 mil pacientes revela uma assinatura hereditária compartilhada entre 12 tipos de tumores e abre caminho para novas estratégias de prevenção e medicina de precisão

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A pesquisa oncológica tratou, durante anos, cada tipo de câncer como uma doença essencialmente distinta, com suas próprias causas, mutações e mecanismos biológicos. Agora, um estudo internacional publicado nesta sexta-feira (26), na revista científica eBioMedicine, do grupo The Lancet, sugere que diversos tumores compartilham uma mesma arquitetura genética subjacente — uma espécie de “código comum” da carcinogênese.
A pesquisa, intitulada Genomic structural equation modelling of 12 cancers identifies a latent pan-cancer susceptibility factor and shared determinants of carcinogenesis, analisou dados genômicos de mais de 600 mil pacientes de ascendência europeia acometidos por 12 tipos de câncer, incluindo mama, pulmão, próstata, colorretal, ovário, rim e melanoma. O trabalho foi liderado por pesquisadores da Sichuan University e da Fudan University, sob coordenação de Qian Xu e Can Hou.
Um fator genético universal
Utilizando uma abordagem estatística avançada denominada Modelagem de Equações Estruturais Genômicas (gSEM), os cientistas conseguiram separar os componentes genéticos específicos de cada tumor de um componente compartilhado entre todos eles, denominado fator pan-câncer.
“Nossos resultados mostram que a suscetibilidade hereditária ao câncer não está confinada a órgãos específicos, mas inclui um componente biológico comum que pode ser modelado diretamente”, afirmam os autores no estudo.

Fonte das estatísticas resumidas do GWAS
No presente estudo, incluímos 12 tipos comuns de câncer selecionados com base na disponibilidade de dados e na contribuição para a carga geral de câncer: cervical, mama, endométrio, rim, cavidade oral e faringe, ovário, tireoide, próstata, colorretal, pulmão, bexiga e melanoma. Os cânceres gástrico e pancreático foram inicialmente considerados, mas excluídos por apresentarem menos de 5.000 casos cada, o que limitaria a estimativa estável do gSEM...
A análise identificou 133 regiões independentes do genoma associadas ao risco de câncer, das quais oito nunca haviam sido relacionadas anteriormente a qualquer tipo de neoplasia. Os resultados também permitiram mapear 132 genes candidatos ao desenvolvimento tumoral, incluindo 21 genes praticamente desconhecidos na literatura oncológica.
Entre os genes clássicos redescobertos estão:
- BRCA1, ligado ao reparo do DNA;
- TP53, conhecido como “guardião do genoma”;
- KRAS, envolvido na proliferação celular;
- MYC, regulador central do crescimento tumoral;
- FGFR2, associado à sinalização celular e ao desenvolvimento de diversos cânceres.
O poder preditivo da genética
Uma das descobertas mais promissoras do trabalho foi o desenvolvimento de um escore de risco poligênico pan-câncer (PRS), capaz de estimar a predisposição genética geral ao câncer.
Nos dados do UK Biobank, que reúne informações de quase meio milhão de pessoas, o novo modelo explicou 2,97% da variação no risco global de câncer, desempenho superior ao de todos os modelos anteriores e dos escores específicos para cada tipo de tumor.
Para alguns cânceres individuais, o poder preditivo alcançou 8,66%, um resultado considerado expressivo em genética complexa.
“Embora ainda não seja uma ferramenta clínica independente, o modelo representa um importante avanço na integração de fatores genéticos de risco”, destacam os autores.
O escore também foi validado em uma população independente de 10.112 indivíduos asiáticos, demonstrando que parte desse risco compartilhado transcende diferenças étnicas.
As novas pistas da carcinogênese
O estudo revelou que grande parte da herdabilidade do câncer está concentrada em regiões regulatórias altamente conservadas do DNA — trechos que controlam quando e onde os genes são ativados.
Além de confirmar mecanismos clássicos, como:
- reparo de danos ao DNA;
- controle do ciclo celular;
- apoptose;
- sinalização de fatores de crescimento;
a pesquisa identificou processos biológicos pouco explorados na oncologia, incluindo:
- organização de organelas celulares;
- tráfego intracelular de vesículas;
- modificações pós-traducionais de proteínas.
Segundo os pesquisadores, esses mecanismos podem representar “territórios inexplorados” na busca por novos tratamentos.
Proteínas que podem se tornar alvos terapêuticos
A equipe também empregou uma estratégia de randomização mendeliana proteômica, investigando mais de quatro mil proteínas circulantes no sangue.

Foram identificadas 23 proteínas com provável influência causal sobre o risco de câncer, entre elas seis consideradas potencialmente “drogáveis”, ou seja, passíveis de serem moduladas por medicamentos.
Duas proteínas chamaram atenção: PLG, envolvida no sistema de ativação do plasminogênio e FN1, relacionada ao remodelamento da matriz extracelular.
Segundo os autores, esses alvos podem inspirar futuras estratégias de prevenção e desenvolvimento de terapias.
Uma nova visão sobre o câncer
Apesar do entusiasmo, os cientistas reconhecem limitações importantes. O modelo foi construído principalmente com indivíduos de ancestralidade europeia, e seu poder preditivo ainda é insuficiente para aplicação clínica isolada.
Mesmo assim, o estudo representa uma mudança conceitual importante.
“O câncer não deve ser visto apenas como um conjunto de doenças independentes, mas também como um fenômeno biológico compartilhado, sustentado por mecanismos genéticos comuns”, concluem os pesquisadores.
Ao revelar um mapa genético unificado da suscetibilidade ao câncer, o trabalho oferece uma nova lente para compreender a origem dos tumores e aponta para um futuro em que prevenção, diagnóstico precoce e terapias poderão ser desenvolvidos a partir de fatores de risco compartilhados entre diferentes formas da doença.
Referência
A modelagem de equações estruturais genômicas de 12 tipos de câncer identifica um fator latente de suscetibilidade pan-câncer e determinantes compartilhados da carcinogênese. eBioMedicinaVol. 129 106356 Publicado: 26 de junho de 2026. Qian XuLu Niu, Zian CaoJiwen Geng, Huazhen Yang, Yu Zenge outros. DOI: 10.1016/j.ebiom.2026.106356